quinta-feira, agosto 07, 2014

"E A NOITE RODA " - ALEXANDRA LUCAS COELHO





Acabei de ler , de rajada,  este que  é o primeiro romance da jornalista Alexandra Lucas Coelho , galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2012.

Na cerimónia de entrega desse mesmo Prémio , fez um discurso fortemente crítico   a Cavaco Silva e à coligação PSD/CDS. O que lhe valeu ser insultada após a cerimónia pelo Secretário de Estado da Cultura Barreto  Xavier : era primária e deveria estar agradecida pelo  Prémio que tinha verba pública, coisa que não corresponde  à realidade.

Além disso, este Prémio  costuma ser entregue pelo Presidente da República, mas  como as relações entre Cavaco e uma das pessoas ligadas ao mesmo não são as melhores,  o ocupante de Belém  pôs  as suas questões pessoais à frente dos deveres do cargo que ocupa. Infelizmente, é recorrente este comportamento.

A autora viveu  na Palestina durante  um certo tempo e , por isso, sabe  por experiência própria dos cortes de electricidade, de água, de encerramento  total da população em Gaza ,  do terror dos bombardeamentos.

Falemos  agora do romance.

Ana e Léon são jornalistas em serviço na Palestina  aquando da morte de Arafat.

Ela é catalã e solteira e ele belga, casado , pai e bem mais velho.

O romance entre ambos  vai desenrolar-se por vários sítios, mas especialmente tendo como fundo   a dificuldade tremenda que é , para os palestinianos, viverem encerrados em Gaza - frequentemente alvo de ataques bárbaros de Israel - e de como é complicado sair e entrar  pelas portas desse gueto, controladas por militares israelitas que agem segundo o seu capricho de momento.

Até para  os jornalistas  a ida em trabalho a uma qualquer cidade é uma aventura onde podem desperdiçar horas para percorrer poucos quilómetros , além de serem sujeitos às mesmas humilhações de que são vítimas os palestinianos.

A Democracia  deve ser aceite sempre, quer se goste ou não dos resultados, e quando o Hamas ganhou , inesperadamente, eleições que  todos os observadores internacionais  tinham declarado limpas , a reacção dos EUA, da UE e da Fatah foi  a de quem só respeita aquilo que lhe  convém e não a vontade de quem vota.

E a partir daí, Israel -apoiado pelos seus aliados - boicotou por completo o território com todas as péssimas e injustas consequências que se conhecem.

Inclusivamente, Fatah e Hamas envolveram-se numa guerra fratricida , fazendo o jogo do invasor, que - embora pense que não - também perde com  esta situação, embora menos e a mais longo prazo.

Quanto ao envolvimento do par,  não direi nada mais.

Espero ter despertado o vosso interesse,  ainda mais  porque novamente Israel arranjou pretexto para atacar Gaza por ar, terra e mar  assassinando sem  escrúpulos nem respeito por quem quer que seja  largas centenas e centenas de palestinianos, sendo a maior parte civis , incluindo quatrocentas crianças .

Enquanto  criaturas do "povo eleito" se sentavam nas colinas em sofás assistindo a um genocídio infame como se estivessem numa sala de cinema e , se calhar, até comeram pipocas  !


"Os palestinianos da Galileia continuam onde sempre estiveram. O lugar é que se tornou Israel em 1948, e portanto Israel chama-lhes árabes israelitas. Mais de 20% da população e sempre a crescer. "

"Fui a Nazaré outra vez.Ainda não estava satisfeita. E estou de novo no meu quarto , 546 autocarros depois. Há autocarros diretos de Jerusalém para lugarejos remotos com um punhado de judeus, mas não há autocarros diretos de Jerusalém para a maior cidade árabe de Israel."

"Do lado israelita, nunca me habituei a abrir a mala sempre que entro num café ou num restaurante, onde os seguranças são sempre judeus etíopes, o pior emprego do mundo para os mais pobres do mundo judeu, porque lhes pode sempre rebentar uma bomba na cara."


sábado, agosto 02, 2014

"SOL POSTO " - LEONEL COELHO



Não havendo ali ninguém
A quem perguntar

Pois já tudo à minha volta
Era silêncio

Perguntei eu a mim
Então hoje o sol não chega?

E de mim
Lá muito do fundo
Do mais íntimo do fundo

A resposta subiu como alcatruzes de nora
 E ouviu-se:

Não.
O teu último sol foi ontem.


Leonel Coelho

Setembro 2007
("De Mão Dada")

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